A minha última Copa
Um brinde a todos os amores que não amei e às Copas que não joguei
Não, não. Não vou morrer - não tá nos planos, pelo menos. Espero ainda assistir muitas Copas do Mundo. Mas a verdade, nua e crua, é que não fui convocado para essa Copa do Mundo. E era a minha última chance.
Faço 42 anos agora em julho. Roger Milla, célebre atacante camaronês, com 42 anos, foi o jogador mais velho a fazer gol em Copa. Milla, que jogou a Copa de 1982, a de 1990 e a de 1994, já jogou mais Copas do que eu.
Até porque, eu nunca joguei uma Copa.
Eu lembro de Milla na Copa de 1990 e sua dancinha na bandeira de escanteio, logo após marcar o gol que eliminou a Colômbia, foi feita quando ele tinha 38 anos. Eu, contudo, tinha 6 anos e imaginei que ia levar um tempo para eu ser um craque na Copa do Mundo, mas que dava para chegar lá. Como tanta criança por aí, o sonho de ser jogador de futebol existia e pulsava.
Talvez na Copa de 2002 eu tivesse idade suficiente para começar a jogar. 18 anos. Mas ainda muito novo, a minha Copa mesmo seria 2006. E, jogando pelo Brasil, bateria recordes. Jogaria 2006, 2010, 2014, 2018, 2022...2026 seria a última dança! Os recordes de Messi e Cristiano Ronaldo seriam acompanhados por Fernando Pureza.
Não na qualidade, claro. Nunca tive expectativas de ser um craque. Seria um jogador esforçado, tendo em vista a minha inabilidade inata com a bola nas pés. De alguma forma, era difícil correr, dominar a bola e driblar. Talvez fosse melhor ser goleiro - o que tornaria mais fácil manter essa longevidade toda. Quando criança, ouvia as histórias de Dino Zoff, goleiro italiano que ganhou uma Copa do Mundo aos 40 anos - justo aquela lá, da batalha no Sarriá.
Mas na minha família havia uma bronca com jogar no gol. Tinha que ser zagueiro. E, como aos 8 anos descobri que era míope, ficava mais difícil ser guardametas - no que eu insisti ainda por um tempo, quando aos 14 anos eu heroicamente fui defender um pênalti ficando parado. O óculos quebrou, o supercílio cortou e eu dei uma leve desmaiada. É, goleiro não ia dar.
No Ensino Médio, quando consegui emagrecer e fazer exercício regularmente, senti que podia me aventurar para a lateral direita. Mas parecia uma posição difícil de superar. Eu conseguia fazer cá e lá alguns cruzamentos e marcava forte os pontas-esquerdas. Mas, verdade seja dita, o tempo da Copa de 2002 se aproximava e eu achava que não ia conseguir ter a forma física para tirar a posição de Cafu.
E, claro, como eu não fazia parte de nenhuma base, não treinava em nenhuma escolinha e só jogava futebol no colégio, estava sentindo que ia ser preterido na copa de 2002.
Tudo bem. Essas coisas são políticas mesmo. A chance boa tava em 2006.
Porém, o ciclo de 2006 foi bastante tumultuado. Enquanto esperava ser descoberto, fui para a faculdade. Uma vida de sexo, drogas e rock and roll em meio a debates sobre marxismo, historiografia e idas e vindas amorosas indicavam que eu não estava me preparando adequadamente para jogar na Alemanha em 2006. Sei que Sócrates bebia e fumava e jogava em altíssimo nível. Mas apesar de nossas semelhanças, eu definitivamente não tinha o mesmo talento futebolístico.
A partir daí, estava evidente que eu não estava levando a preparação a sério. Até porque, preferia passar as copas nos bares do que nas concentrações. E há algo de melancólico nessa Copa, pois foi a primeira em que me deparei com jogadores mais jovens que eu e que já estavam consolidados como titulares. Messi e CR7 nada mais eram do que moleques e eu lá, com 22 anos, sentindo que meu tempo estava passando. Esse costuma ser o primeiro sinal de que você não vai conseguir: começar a ver que tem jogadores mais jovens do que você. Mas bola para frente, a gente sempre acredita que pode ser um cara que amadurece mais tarde e que o auge da sua forma pode vir, sei lá, aos 26 anos.
Em 2010, contudo, eu recém estava namorando e não demonstrei muito interesse em ir para a África do Sul. Contudo, eu e a minha respectiva assinamos um pacote da Sportv e vimos a Copa juntos, eu e ela, juntinhos no sofá. Enamorados, acabamos perdendo um pouco algumas questões táticas aqui e ali. Só que a dura verdade é que na minha próxima Copa eu estaria na beira dos 30.
Só que esse não foi o único problema. Eu estava sem treinar, sem jogar e trabalhando duro como professor. Sobrava pouco tempo para demonstrar que eu era imprescindível para a Seleção. Contudo, sinto que minhas chances diminuíram de vez quando participei dos protestos em 2013. Aos gritos de “não vai ter Copa (vai ter luta)”, tive certeza de que a CBF barraria minha eventual convocação. Tudo bem. Fico feliz de não ter participado do vexame do 7 a 1, embora jogar uma Copa no seu próprio país fosse um grande sonho.
Verdade seja dita, sou um esquerdista incorrigível. Fui vocal nas críticas das Copas de 2018, 2022 e 2026. Rússia, Qatar e EUA são inaceitáveis, países com regimes violadores de direitos humanos, jamais deveriam ter sediado a festa do futebol - mas até aí, a Argentina em 1978 também não e, sendo bem sincero, nem a Itália em 1934, nem a França em 1938, nem a Inglaterra em 1966 e…bom, deu para entender. Caso fosse para a Copa, iria fazer críticas vocais contra governos de direita. Ia confrontar Infantino na cara dele e, claro, com isso, seria um risco muito grande para a CBF. Foi preciso me silenciar.
Verdade seja dita, faz uns 10 anos que não jogo futebol, logo, meu condicionamento físico é sofrível. Quando meu filho nasceu, tive a esperança de que teria aí um bom pretexto para recuperar a forma. Jogaríamos juntos, quem sabe? Mas não deu muito certo. Mesmo sem whisky, pôquer e RedBull, não tenho mais o mesmo preparo da juventude. Ele não, ele corre enlouquecidamente pelo campo todo. E já ensaia passes em profundidade e tabelas. Eu? Eu me arrasto pelo campo, sem qualquer ritmo de jogo. Mas ninguém me tira da cabeça que meu afastamento da convocação foi político - assim como a convocação do atleta calvo do Santos também foi política.
Não sou Roger Milla, definitivamente. E o que não dizem, contudo, é que Milla fez o gol de honra num vexatório 6 a 1 para a Rússia, numa Copa em que ambos caíram na primeira fase. Imagino que Milla trocaria o seu gol por uma copa mais longeva, onde pudesse ter tido alguns joguinhos a mais. Não acho, contudo, que ele ia preferir ser professor. Ok, cada um com seu cada qual. Mas eu ainda penso que poderia ser eu lá, Roger Milla, fazendo um gol em Copa do Mundo.
Na próxima Copa, terei 45 anos. Quase 46. Essam El-Hadary, goleiro do Egito na Copa de 2018, ainda jogou uma partida contra a Arábia Saudita. Contudo, o seu time tomou 2 gols. As duas seleções estavam já eliminadas e o Egito amargou o recorde negativo de nunca ter ganho uma partida de Copa do Mundo. Mas Hadary jogou, né? Será que ainda tenho chance para a próxima Copa? De repente me voltam as fantasias de ser um arqueiro de nível mundial…
Levanto a hipótese como quem já sabe a resposta. Não há chance nenhuma. Resta apenas lidar com a melancólica sensação de que meu tempo nas quatro linhas acabou. Felizmente, os técnicos são muito mais longevos. Nessa Copa, Dick Advocaat vai quebrar um recorde e, com 78 anos, vai ser o técnico mais velho a disputar uma Copa do Mundo.
Sigo em frente: ainda tenho chance de ir para a Copa do Mundo. E pelo menos seria reconhecido por um pronome de tratamento que já estou até acosumado. Vai lá, “professor”!



Inspirador e muito relatable
Como as Copas acompanham as fases das nossas vidas... Muito bom!