Ana - parte 3
Os abraços não-dados: do que é feito uma pessoa?
Samara Paiva, “Uma ode à memória”, 2022.
(para acompanhar a primeira parte, clique aqui; para ler a segunda parte, clique aqui)
Terminei o texto passado num lugar de certo acolhimento em minhas memórias. Estou na porta da cozinha, brincando com bonequinhos. Tenho 3, 4 anos, talvez. Enquanto brinco, Ana está passando um pano na cozinha e diz para eu não entrar. Eu obedeço e fico ali, sigo brincando, na divisória da cozinha. Se fechar os olhos, começo a identificar vários aspectos da cozinha, mas percebo que a memória me trai - os eletrodomésticos têm uma história própria e coloco todos eles na cena, numa lembrança confusa. A única figura humana que me dá o senso de referência da cena é Ana.
Retomo Ana como uma espécie de enigma. Lembro de muitas coisas pequenas que circundam o que ela era. Ela era, por exemplo, colorada e petista, assim como meu pai. Lembro que tomava uma cervejinha em dia de Gre-Nal. Lembro que jogava no bicho toda semana. Lembro que era católica, mas não praticante - e apesar do crescimento das igrejas neopentecostais na sua família, nunca se converteu a fé evangélica.
Tudo isso vinha em interações do cotidiano. Entre lavar roupa, passar, cozinhar, arrumar a casa e lavar a louça, estava eu no meio do caminho.
Não lembro propriamente de conversar com Ana, lembro de perguntar coisas pra ela. O tempo todo, como criança. Eu queria saber mais dela. E sentia falta dela quando ficava muito tempo longe. Ana não tinha tempo para brincar comigo, mas como eu disse, me ajudava a ler. Remexendo nas memórias, minha mãe disse que aprendi a ler com ela, mas talvez fosse algo mais complexo - eu lia enquanto ela trabalhava. Ana, na verdade, não cuidava de mim nos termos que hoje consideramos o cuidar de uma criança. Ela tinha que cuidar da casa e evitar que eu, enquanto criança, simplesmente fizesse algo errado. Tinha que me alimentar, me botar no banho… mas brincar?
Só que eu queria que ela brincasse comigo. Queria que ela lesse para mim. E como ela não podia, eu tentava ler sozinho, em voz alta, para nós dois. Eu queria que ela brincasse comigo com meus soldadinhos. Mas como ela não podia, eu brincava na frente dela, na sala e na cozinha. E assim seguíamos. Aos poucos eu ia sondando seus gostos e seus desejos. Ela falava de política com meu pai e, conforme fui crescendo, fui entrando nos assuntos. Meu pai era petista e Ana também - ela era muito grata ao PT pela política de valorização da moradia popular em Porto Alegre e pela estatização da Carris, que garantia linha de ônibus direto da casa dela para a minha. Meu pai e Ana, em classes sociais diferentes, atravessados por gêneros opostos e por racialidades distintas, confiavam no mesmo projeto político, da Porto Alegre dos anos 1990 em que o petismo era uma força transformadora.
Nenhum dos dois se filiou ao PT, mas eram simpatizantes e eleitores do Lula antes mesmo do Lula ser o que ele é hoje.
Os dois eram colorados. Ainda que meu pai fosse uma enciclopédia de futebol, Ana e ele tinham a mesma paixão. No longínquo ano de 1992, meu pai me levou para ver a final da Copa do Brasil, Inter x Fluminense. Eu já me considerava gremista, mas meu pai tentou sua última investida para me converter para o lado vermelho da força. Lembro até hoje do pênalti que Célio Silva converteu e que, nos momentos antes do gol, eu torci para ele acertar porque o meu pai e a Ana ficariam muito felizes.
Eu continuei sendo gremista, mas aprendi desde cedo de que não podia tocar flauta em duas pessoas: a Ana e o meu pai.
Mas apesar das proximidades em gostos e convicções, era com a minha mãe que Ana conversava mais. Era com ela que Ana dividia dramas familiares, questões difíceis que atravessavam sua família estendida. O medo da violência na comunidade onde morava, no Partenon, perto da Vila Sapo; as histórias de traição e violência dos maridos (não o de Ana, mas de outros); o cuidado com os pais, já velhinhos em Canguçu. A minha mãe retribuía com a escuta atenta, com certa dose de carinho. Ela conhecia os personagens das tramas, porque, afinal, uma coisa precisa ser dita. A Ana era também um fato sociológico.
É estranho definir uma pessoa dessa forma, mas é que Ana não era só a Ana que ia para a minha casa, a minha Ana. Ela tinha irmã, cunhada, comadre, vizinha e amiga…todas elas trabalhavam não só em ‘casas de família’, mas nas casas da minha família. Três tias que sempre tinham a Ana como referência, porque ela indicava outras mulheres próximas para trabalhar para elas. Criava assim uma rede de sociabilidade curiosa, na qual a minha família se tornava família estendida de Ana. Até hoje uma tia minha é madrinha das sobrinhas de Ana, mostrando o quanto esses vínculos foram estabelecidos. Em todos eles se repetem as mesmas cenas, os mesmos duros e difíceis cruzamentos entre afeto e violência. Ela ajudava a inserir essas mulheres num mercado de trabalho informal de mulheres negras nas quais elas invariavelmente viam como oportunidade, mesmo que entendendo as violências postas.
É Lélia González que, analisando dados de São Paulo na década de 1970, afirmava que 90% das mulheres negras trabalhavam em serviços de cuidado. Esse dado pode ser relativizado a luz de outras pesquisas, mas quando li esse levantamento, entendi o quanto Ana era justamente esse fato sociológico. Sua existência se explicaria para além da sua própria trajetória.
Mas eu queria a trajetória.
Eu queria encontrar os valores e os afetos de Ana de tal forma que eu pudesse recuperar o passado dela e perguntar o quanto eu fiz parte dele. Quando nos vimos, pela última vez, eu e minha mãe fomos até a casa dela. Era uma casa bem ajeitadinha, de alvenaria. Tinha tudo ali, estava finalmente pronta, depois de décadas, como ela mesma dizia. Era uma casa confortável, embora o bairro em si fosse bastante precário. Ela estava com Maria, a sua irmã. Nos ofereceram café, pão, queijo, mortadela, margarina…fizemos um lanche, conversamos. Mas eu olhava para ela e via que ela estava sofrendo. Não era mais a mesma pessoa, porque certas doenças são tão desgraçadas que elas nos desfiguram. Mudamos profundamente no corpo e, consequentemente, a fragilidade da matéria se dá na fragilidade da própria personalidade. Eu não sabia que era nosso último encontro, mas não consegui dentro de mim perguntar se eu veria Ana de novo.
Queria poder ficcionalizar esse encontro e perguntar para ela, se ela sabia de tudo, se ela viu tudo, o que ela viu e o que ela não viu. Queria perguntar se o afeto que eu senti e o afeto que ela me deu em troca era real. E ela diria que sim para tudo e me abraçaria e me acalentaria. Mas essa parte do encontro não aconteceu. Meu abraço nela foi um abraço receoso, de quem tem em suas mãos uma espécie de passarinho caído, que você tem medo de apertar. Eu e a minha mãe voltamos para casa em silêncio depois e só lembro dela comentar: “Como a Ana tá ‘pouquinho’…”
Pouquinho era o eufemismo de minha mãe para dizer que Ana estava morrendo. E isso me deixou com os olhos marejados. Era a oportunidade perdida se construindo. Quando, meses depois, veio a notícia da sua morte, tentei recuperar tudo que sabia sobre Ana e fui pensando em como memorizar, em como narrar. Queria uma narrativa que trouxesse a verdade sobre ela, que a recuperasse em sua totalidade. Mas isso também era ‘pouquinho’. Não havia muito mais de Ana exceto a lembrança de todos que a amaram e cruzaram seu caminho.
E havia as minhas lembranças. Eu que a amei e cruzei seu caminho. Ou ela que cruzou o meu. Ali, entre 1984 e 1985, quando eu a vi com meus olhos, mas que meu cérebro não guardou. Eu que a pensei como mãe - e a rejeitei como mãe. Eu que lhe explorei sem dar o sentido do que era essa exploração. Eu que a amei e me enlutei com a sua perda.
Ana é o meu fantasma…não como assombração, ou tormento. Mas como lembrança. Como fonte viva para pensar sobre mim e a minha vida. É injusto que ela não possa narrar a sua vida. Se errei na minha apreciação sobre tudo, seria no mínimo correto ela poder dizer. E nesse sentido que a vejo como fantasma, porque a qualquer momento espero que ela saia e diga sim para tudo e me abrace. É o colo de uma mãe que sempre foi a “segunda mãe”.
É nesse abraço faltante, lacunar, que eu encerro essa história. Pelo menos por agora…



essa sequência da Ana tá linda, linda, linda...
os filhos dela podem ler?