Cafonices
O extremo-centrismo e a arte de pavimentar o caminho para o inferno
América Invertida (1943), Joaquín Torres Garcia
Recentemente, nas redes sociais, pessoal recuperou um constrangedor vídeo em que aparece a tríade da burrice jornalística. Tão ali Pedro Dória, Malu Gaspar (é…aquela lá da semana passada) e Mariliz Jorge e, em dado momento, esta última fala: “ai, gente, não sei vocês, mas acho tão cafona essa coisa de imperialismo”. O nome do podcast, apresentado por Dória (uma espécie de nepobaby do jornalismo brazuca), é sugestivo: Mesa do Meio. Uma brincadeira para quem já defendeu, entre outras coisas, que sua posição é de “extremo centro”.
Neste sábado, dia 03 de janeiro de 2026, a cafonice veio à tona quando o terrorista-chefe dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou o sequestro do presidente venezuelano, Nicolas Maduro. O ato foi seguido de bombardeios em alvos militares estratégicos venezuelanos e, ao que se segue agora, nas horas seguintes, vem uma série de anúncios do próprio Trump de que os EUA irá tomar conta do território venezuelano, do seu petróleo, e já deixando avisados governos do México, da Colômbia e demais países latino-americanos sobre suas intenções.
Ainda acho que é muito cedo para escrever algo realmente relevante sobre o ato terrorista cometido pelo governo americano contra Nicolas Maduro e o povo venezuelano. Nas redes sociais, uma pá de ruído e um tanto de teoria conspiratória alimentam muito das análises geopolíticas. Eu, invariavelmente, lembro daquela anedota do Zhou Enlai e penso: “é cedo demais para comentar algo”. De toda a forma, um dos melhores textos que li foi do amigo Serge, doutor em Sociologia e que escreve o excelente “Permutações”. Nele, Serge faz uma inquietante questão:
A “Big Picture” era a China e a guerra pelos RECURSOS (Terras raras energia). Por isso sempre pergunto: como o Brasil está se preparando nesse cenário? Sabemos que Trump já colocou sua mão no Congo (com as minas que até então eram controladas pela China). Resta o Brasil. E as discussão do governo (o vice-presidente) com as Big Tech, acabaram em que? O que o Brasil vai oferecer aos EUA? Afinal, a China está lá muito longe, e os americanos acabam de mostrar que podem sequestrar um presidente de um país da América do Sul.
A pergunta de Serge me coloca num lugar curioso. Porque tenho visto, entre inúmeras manifestações, muitas delas bem intencionadas, falando: “eu não gosto de Maduro”, ou “eu não defendo Maduro”, todas acompanhadas de um estratégico “mas” no qual denunciam a agressão estadunidense.
No que estão certíssimos na denúncia, deixo claro.
O erro, contudo, talvez seja de outra ordem: é sobre como somos capturados pelo “extremo-centrismo” e porque caímos na cilada de achar que imperialismo é “cafona”. Convenhamos: é irrelevante se gostamos, ou não, de Maduro. É irrelevante se apoiamos, ou não, o governo de Maduro. Mas se torna uma estratégia de normalização de certo discurso político - o lado deposto era indefensável, mas vejam bem, o agressor também é. Com isso, normaliza-se o arbítrio baseado na ponderação sobre qual será o destino de um povo agredido.
Algo parecido ocorreu nos últimos anos quando tantas vozes denunciavam o genocídio israelense cometido na Faixa de Gaza. Ao denunciar o agressor, muitas vozes começavam suas falas partindo de um ponto bastante similar: “eu não gosto do Hamas”, ou “eu não defendo o Hamas”. Um medo atroz de ser emparedado por um suposto establishment como defensor do indefensável fazia com que essas denúncias perdessem sua força justamente porque buscavam mediar uma agressão desproporcional entre as forças existentes.
A perda da força política da denuncia é a consequência mais evidente. À medida que duas forças indefensáveis são colocadas lado a lado, o analista político se coloca num lugar seguro onde nenhum esforço político precisa ser pensado para garantir algum tipo de estabilidade institucional, ou que seja, para a proteção de civis. Ele idealiza um cenário de equilíbrio que, ao ser rompido, só pode ser lamentado. E com ele, oramos para que não nos aconteça o mesmo fim.
Vejam: nossa leitura de mundo não exige, de fato, apoiar Maduro para criticar os Estados Unidos. Mas não é preciso falar que não apoia. Não é preciso dizer que é contra Maduro, contra a teocracia iraniana, ou que é contra o Hamas. Ao falar isso, o crítico arroga uma posição de certa serenidade liberal, eminentemente idealista, na qual ele se coloca acima do conflito. Denuncia o agressor, claro, mas é como se dissesse que a vítima também não era santa. Com isso, paira a dúvida sobre se o povo é vítima da agressão imperialista, ou de um governo do qual eu tenho desacordo - inclusive pressupõe a coexistência de ambas condições, neutralizando a agressão e permitindo, sim, que ela seja lida como “libertação”.
Alguém pode dizer, é claro, que Maduro, Hamas, a teocracia iraniana…eles não são o povo venezuelano, o povo palestino, ou o povo iraniano. Mas verdade seja dita, são representações políticas de parte dos venezuelanos, de parte dos palestinos, de parte dos iranianos (ainda que se possa discutir se são representações democráticas). São fruto de relações de força e tensões de classe específicas dessa sociedade. E por mais que sejamos críticos, ou apoiemos, tais regimes, o que eles são invariavelmente é irrelevante em um cenário de agressão externa. São construções políticas que se arrogam o direito de soberania porque, em tese, representam senão a maioria do povo, uma parte significativa do mesmo. E à medida que estão sujeitos à intervenção de potências estrangeiras, se entende que não possuem nenhum direito, ou legitimidade. Estão à mercê da destruição e dependem de uma força militar saqueadora e destrutiva para fazer com que a “história se mova” para que o povo se liberte.
Ora, isso não é liberdade. E é preciso sim, diferenciar opressões. Governos como o de Maduro, do Hamas, ou da Teocracia iraniana, podem não ser os meus governos e, num cenário democrático liberal, posso até me opor a eles. Mas a guerra e a agressão imperialista (sorry, cafonas) não fazem mais parte de lógicas democrático-liberais - ainda mais diante de um governo Trump que é bastante sincero sobre o tipo de saque colonial que pretende promover. Diante disso, diante da violência cometida, o que resta? Condenamos Maduro e a agressão estadunidense? E agora? Queremos que os EUA recue? Que os venezuelanos possam escolher livremente seu destino? Quem irá criar essa democracia liberal tão desejada? Os “ianques, com seus tanques”?
Não creio que cabe a mim dizer o que os intelectuais, sempre tão doutos e ciosos dos seus saberes, devem fazer, pensar e falar. Mas se puder dar uma sugestão, bem singela e bem de boinha: fujam das armadilhas do extremo-centrismo. Denunciar, sim, o imperialismo estadunidense e seus atos de terror. Sempre. Mas de forma incondicional. O condicional é que nos quebra. O condicional é que nos permite negociar com o que há de mais sombrio que se aproxima de nós. Porque quando nós formos a bola da vez - e lembrem da pergunta inquietante feita pelo Serge, pois nós seremos - eu não quero ter que condicionar a defesa da nossa soberania a um governo X, Y ou Z.



Quando você escreve sobre as pessoas "governadas" por regimes como a teocracia iraniana, o Hamas ou um Maduro da vida, fiquei pensando em algo que ontem inclusive tuitei: ninguém exige do povo estadunidense revolta contra um Estado que é historicamente intervencionista, que só na Guerra ao Terror deixou um rastro de mais de 4 milhões de assassinados, que arrasou a Síria e a Líbia, que em 1945, quando a Comunidade Internacional já estava formada repensando os horrores nazistas, jogou duas bombas atômicas num país rendido. Ninguém exige dos israelenses - que estão cada vez mais fascistizados, defendendo abertamente um genocídio - povoem as ruas para exigir a saída de um facínora, que desde 2023 (pra ficar nos acontecimentos mais recentes) está aniquilando um povo inteiro. O pessoal do naipe do Dória, Mariliz e Gaspar, essa moçada cheirosinha, que compõe a nata da intelectualidade mainstream brasileira (meu Deus!!!), não acredita nesse papo de imperialismo porque se beneficiaram a vida inteira das consquências do imperialismo, seja ele em sua manifestação física e mais brutal, como vemos agora, seja em sua manifestação mais simbólica, cultural. É capaz de sermos rendidos tal qual a Venezuela e essa galera se apresentar no dia seguinte para fazer parte do "governo de transição".
Cara, pois é. Existe um anseio por emular um discurso acima de qualquer suspeita, acima do bem e do mal. Isso é um delírio. Não existe alguém que está acima da ideologia. Um ser supremo capaz de olhar tudo de fora. Sinceramente, acho que essa é uma das razões do adoecimento das pessoas. Há um auto policiamento pra garantir o discurso insuspeito, "sem viés". Algo impossível de existir. Não tem essa de assistir tudo de cima do muro. A própria ideia de um "centro" na política é absurda. Ou apoia-se o modo de produção, suas instituições políticas e consequências ou busca-se alternativas. O resto é truque da ideologia vigente, que esconde os mecanismos que gerem as sociedade.
Como já cantaram os poetas: there's no such thing as halfway crook