No equilíbrio da lata
A Seleção, as Copas e os compassos com a política
Via Ápia, na Rocinha. Decoração para a Copa de 2026.
Faltam algumas horas para sabermos quem serão os 26 convocados por Carlo Ancelotti para a Copa do Mundo de 2026. Os mais indiferentes quanto ao futebol e quanto à Seleção estão todos atentos para saber se o técnico italiano irá convocar Neymar Jr. (ex-Menino Ney) para uma dessas vagas. Um grau de polarização curioso acomete a sociedade brasileira quanto a esse tema. O portal Globo Esporte fez uma enquete recente e o “não” venceu por 50,79% contra o “sim”, que chegou a 49,21%. A título de comparação, a eleição presidencial de 2022 viu Luís Inácio Lula da Silva vencer o adversário, Jair Bolsonaro (atualmente em prisão domiciliar), por uma diferença de 50,90% a 49,10%. E dizem que futebol não é político…
Quando eu publicar esse texto vai faltar menos tempo e, claro, quando lerem, tem uma chance do dilema já ter sido resolvido - o que acho pouco provável, pois “vagabundo” sendo convocado, vai ter depois o capítulo “vagabundo vai jogar” e “vagabundo vai jogar quanto tempo e quais jogos”. E se não for convocado, muitos takes e muita exploração midiática sobre como cometeram uma injustiça contra esse atleta. Ainda assim, como destacou o jornalista Marcelo Barreto, o esporte favorito do brasileiro é fazer de conta que não liga para a Copa do Mundo e, independente de onde você se posiciona, você, torcedor brasileiro, irá celebrar cada feriado que teremos por conta dos eventuais avanços da Seleção - com, ou sem Neymar.
Mas, verdade seja dita, toda essa celeuma é divertida. Porque ela ajuda muito a revelar como Seleção, Copa do Mundo e política se entrelaçam no Brasil. É uma sacada genial que li pela primeira vez na obra do historiador Hilário Franco Jr., no livro Dança dos Deuses. No texto do livro ele vai até 2006, acho a ideia sensacional, mas passados vinte anos, talvez tenha mais relações a serem exploradas. E aí quis brincar um pouco com essa ideia.
2010: Na Copa de 2010, o Brasil foi para a África do Sul com um comando inusitado. Quem assumiu o posto de técnico foi Dunga, ex-capitão do Tetra. Na mesma época, Luís Inácio Lula da Silva se preparava para passar o bastão para Dilma Rousseff, que se tornaria a primeira mulher presidenta do Brasil na eleição deste ano. Tanto Dunga quanto Dilma foram fundamentais para o sucesso tanto do Tetra campeonato quanto do segundo mandato de Lula. E claro, o Brasil passava por um momento curioso - não havia mais as antigas referências em campo. O “quadrado mágico” de 2006 havia soçobrado e reconstruía-se uma seleção mais pragmática, mais defensiva, menos criativa (inclusive com Dunga preterindo Neymar Jr. e Ganso, em início de carreira). Dilma anunciava-se também como pragmática, mas era uma candidata da continuidade. O fracasso desse tipo de futebol não se refletiu diretamente na política brasileira, mas há uma sensação de que tudo poderia ser perdido por conta de um lunático de extrema-direita que acordou de bode.
2014: Essa era a nossa Copa, literalmente! Em 2014 sediamos a Copa do Mundo e ela foi a coroação de algo muito impactante, o ápice do nosso grande ciclo de desenvolvimento. Mas como muito do nosso desenvolvimento, ele esteve cimentado em profundas contradições, em processos de remoção e exclusão. Ao mesmo tempo, a Seleção foi montada com base num grande pensamento místico, unindo na mesma comissão técnica o treinador penta campeão do mundo e o treinador tetra campeão do mundo. E entre antigos e modernos, foi a primeira Copa do Mundo de Neymar Jr., cuja expectativa era imensa - era o terceiro melhor jogador do mundo e poderia ter chegado ao topo! Entre tantas contradições, duas grandes sínteses: os protestos nas ruas em 2013 e o inefável 7 a 1 da Alemanha em 2014. Entre ofensas contra Dilma Rousseff nos estádios, a certeza de que a sua reeleição seria tensionada - inclusive por um senador mimado e por um fracasso copístico retumbante. Quer dizer, a Copa foi boa…a seleção é que deixou a desejar. E no final, essa foi a Copa que nos colocou uma inquietação: o que somos, afinal? O país do futebol? Ou o do 7 a 1? Um dado impressionante desse drama ficou nos protestos dos anos seguintes, onde a camiseta da CBF, símbolo do massacre alemão, tornou-se também símbolo de patriotismo. E eu tenho um dado: desde o 7 a 1, nada mais deu certo na política brasileira.
2018: A crise política de 2015 e 2016 terminou com o golpe parlamentar que alijou Dilma Rousseff da presidência - mas manteve a chapa intacta, com o seu vice, Michel Temer, assumindo a presidência e “reformando” o governo, levando-o mais e mais para a direita. A Seleção que ia para a Rússia encontrou como novo treinador Tite, um técnico vitorioso, técnico, quadro sem grandes arroubos de autoritarismo, um perfil tranquilo e pouco voltado para projetos de carisma pessoal. Entendeu que Neymar era sua estrela e montou uma seleção na qual ele fosse central para a articulação de jogadas. Mas a infelicidade que puniu o Brasil na fatídica eliminação para a Bélgica acabou sendo absorvida por ele, que manteve uma trajetória de invencibilidade por várias partidas. A perspectiva política do país ia se alterando gradualmente; uma radicalização política subjacente ia adentrando na torcida brasileira e, nas eleições de 2018, as bandeiras nacionais eram empunhadas não mais em Copa, mas como símbolo de patriotismo. E, diante da ascensão de Jair Bolsonaro no horizonte e a prisão de Lula na infame Lava Jato, tivemos pouco tempo e interesse nessa Copa…o Brasil não nos deixava sorrir.
2022: Governo Bolsonaro, COVID-19 e, claro, mais uma convocação de Neymar Jr. A crise em 22 era efetivamente grave. No horizonte, Lula agora solto, podia concorrer às eleições. E por conta da COVID, a Copa foi antes das eleições presidenciais, o que mudou significativamente a forma de vermos o jogo. Neymar poderia ser o cara, Lula poderia ser o cara. Mas o camisa 10 da seleção não teve uma grande copa e, no momento em que mais brilhou, deu o azar de que seus companheiros não tiveram o mesmo brilho. Lula certamente brilhou, mas será que seus companheiros tiveram o mesmo brilho? O êxito lulista e o gradual descolamento da bandeira brasileira e da camiseta da CBF ajudaram a aliviar um pouco mais a relação entre Seleção e presidência, mas verdade seja dita, não recuperamos a glória de outrora.
2026: Vem aí, difícil falar daquilo que ainda não aconteceu. Mas o canto de cisne de Neymar Jr. e o canto de cisne do bolsonarismo na política brasileira parecem andar com certo ritmo combinado. Bem verdade, o canto de cisne bolsonarista está ainda longe de se realizar por completo - apesar de vermos o derretimento da candidatura de Flávio Bolsonaro. E talvez o canto de cisne de Neymar também não se realize, não obstante o jogador não ter completado mais de 7 jogos em sequência desde a Copa passada. Mas há um senso de declínio e novidade que se interconectam com a chegada de Ancelotti e novos jogadores como Endrick, Rayan, Danilo Santos etc. Mas há também um senso de que estamos indo para um possível quarto mandato de Lula, temos uma estrutura, um leitmotiv político que ampara ainda tradições. Camisetas à parte (amarelas, ou vermelhas), a seleção ainda é uma constante na vida política brasileira. E cada vez mais, carregando consigo todas suas contradições. Afinal, esse é um país que pulsa não só com o coração, mas com o ritmo da bola no gramado.


